Poupança de fósforo no solo é um bom investimento?

Roberto Reis – Eng. Agr., D.Sc. – Wirstchat ([email protected])

Não, este texto não trata de investimento financeiro em bancos ou bolsas de valores. Trata-se de uma estratégia tradicional na agricultura e defendida por muitos: o uso de adubo fosfatado para formar uma reserva de fósforo no solo, a chamada poupança, usada para garantir disponibilidade futura de fósforo às plantas.

Mas antes de entrar nesse assunto, vamos utilizar as informações do mercado financeiro para responder à pergunta: Poupança é um bom investimento? Consultando o Google, encontramos a reposta abaixo: A poupança está bem longe de ser um bom investimento. Muitas pessoas utilizam essa opção para investir dinheiro, esperando que traga um bom retorno após anos de aplicação, porém, isso é um grande erro. 

De fato, o investimento em Poupança é relativamente seguro, porém, pouco rentável. Existem outras opções tão seguras quanto e que podem proporcionar um resultado melhor que o rendimento da Poupança.

Poupança de fósforo no solo

É o resultado da aplicação contínua, por anos e anos, de quantidades de fertilizante fosfatado acima da necessidade das plantas, gerando um acúmulo de fósforo no solo. Tecnicamente não existe erro neste posicionamento; a fosfatagem é um exemplo disso. Trata-se de uma técnica de correção de fósforo do solo com aplicação de fertilizantes fosfatados, sendo os mesmos incorporados ou não no perfil do solo. Essa é uma prática que tem como objetivo a elevação da disponibilidade de fósforo do solo. Porém, até que ponto vale a pena colocar todos seus recursos neste investimento? Este questionamento é feito porque o equilíbrio entre ações práticas, técnicas e econômicas deve ser alcançada, pois de nada adianta adotar uma estratégia tecnicamente justificada sem ser economicamente viável ou prática.

Por exemplo, o GAPE (Grupo de Apoio à Pesquisa e Extensão), faz a seguinte orientação para tomar decisão sobre o uso da fosfatagem. “A fosfatagem é uma prática agrícola recomendada principalmente em solos com baixo teor de argila (onde a fixação do nutriente é baixa, possibilitando maior aproveitamento pelas plantas”.

Para dar números à essa estratégia (Fosfatagem) e poder analisar matematicamente esta prática, faremos uma análise de manejo de adubação fosfatada ao longo de 20 anos de cultivo em um sistema de rotação soja (safra verão)/milho (safrinha). Sabemos que o uso contínuo deste sistema de rotação tem pontos negativos, pois o uso de outras plantas de cobertura traz benefícios ao sistema; mas para facilitar os cálculos, este foi o sistema de rotação considerado.

Adubação fosfatada: Quantidade aplicada versus Aproveitamento

Vamos considerar uma situação de um agricultor que cultiva, há 20 anos, soja e milho safrinha na mesma área. Ao longo deste período ele usou, em média, todo ano, 90 kg P2O5/ha e 60 kg P2O5/ha na adubação da soja e do milho, respectivamente. Neste manejo, ao longo dos 20 anos de cultivo, este agricultor colocou 3.000 kg P2O5/ha no seu solo. Vamos considerar que neste período, a produtividade média de soja e de milho safrinha foi de 50 sc/ha e 80 sc/ha, respectivamente. Sabe-se que para produzir 1,0 t de soja e 1,0 t de milho, estas culturas exportam (retiram da lavoura) 11,0 kg P2O5/t e 6,87 kg P2O5/t, respectivamente. Ou seja, ao longo destes 20 anos, a quantidade de fósforo que saiu da lavoura (na colheita) foi de 660 kg P2O5/ha (na soja) e 659 kg P2O5/ha (no milho safrinha), totalizando 1.319 kg P2O5/ha. Resumindo, haveria um saldo 3.000 – 1.319 = 1.681 kg P2O5/ha após 20 anos de cultivo.

Este saldo (1.681 kg P2O5/ha) deveria mostrar um acréscimo de 367,0 mg P/dm3 ao teor de fósforo no solo. Entretanto, sabemos que na prática esta conta não “fecha” desta forma, pois existem pesquisas mostrando o quanto se eleva o teor de fósforo no solo a cada quilo de fósforo aplicado no solo. Segundo a Embrapa, para um solo com 45% de argila, são necessários 18 kg P2O5/ha para elevar em 1 mg/dm3 o teor de fósforo determinado em Mehlich 1. Usando esta informação no nosso exemplo, o saldo de fósforo que “ficou” no solo (1.681 kg P2O5/ha) resultaria em acréscimo de 93,4 mg P/dm3 ao teor de fósforo do solo.

Segundo a Comissão de Fertilidade do Solo no Estado de Minas Gerais, solos com teor de argila = 45% e teores de P superiores a 12 mg/dm3 são classificados como “Bom Teor de Fósforo”. No nosso exemplo temos um aumento do teor de P 7,78x ao que é considerado “Bom”. Entretanto, na prática, temos visto que as chamadas “áreas velhas” de cultivo agrícola que apresentam altos teores de fósforo apresentam teores na ordem de 25 a 30 mg/dm3 (teores elevados).

Onde foi parar este “Excedente” de fósforo?

Muito se fala da fixação de fósforo no solo, mas pouco se fala sobre o processo de envelhecimento de fósforo no solo. Trata-se de um fenômeno conhecido e que explica por que, com o passar do tempo, a disponibilidade do fósforo aplicado via adubação vai se reduzindo.

Sabemos que as plantas não precisam de solos com altos teores de nutrientes, pois o que elas precisam são solos com adequados teores de nutrientes. Logo, a chamada poupança de fósforo no solo (elevados teores de fósforo no solo) não traria, de imediato, benefícios à lavoura.

Pelo exposto acima, verifica-se que para fazer a chamada poupança de fósforo no solo é necessário a aplicação de fertilizante fosfatado em quantidade maior do que futuramente ficará disponível às plantas. Como fertilizante fosfatado não é gratuito (tem alta participação no custo de produção) e as reservas utilizadas para sua produção são finitas, seu uso, para elevar os teores de fósforo no solo em valores acima do que as plantas precisam, deve ser reconsiderado. Ou seja, o solo não é o melhor lugar para estocar adubo fosfatado!

E agora, vale investir na melhoria do solo?

A resposta é SIM, pois sem a devida correção de fertilidade, no caso do fósforo, teremos uma “ripa” curta no famoso barril da Lei do Mínimo e, consequentemente, limitação de produtividade. A questão a refletir não é SE VALE INVESTIR e sim COMO INVESTIR na correção da fertilidade.

Voltando ao exemplo do mercado financeiro, temos que pensar no “5 investimentos melhores que a poupança para aplicar seu dinheiro”. Fazendo um paralelo ao tema que estamos abordando, Investir somente na aplicação de fertilizantes fosfatados (fornecimento de fósforo), fazendo a chamada poupança de fósforo no solo, não é a única estratégia disponível para garantir a boa disponibilidade de fósforo às plantas e, consequentemente, a boa produtividade. Como o exemplo da figura acima sugere, existem outras estratégias que irão garantir melhor retorno do investimento realizado, que são:

– Práticas que eliminam limitação de crescimento radicular (Correção de acidez; Neutralização de alumínio em profundidade; Correção de compactação de solo)

– Práticas que promovam acúmulo de matéria orgânica no solo

– Práticas que promovam o acúmulo de umidade no solo (umidade do solo influencia significativamente a difusão de fósforo no solo – principal mecanismo de transporte de fósforo até as raízes das plantas)

– Uso correto do Sistema Plantio Direto

– Práticas que promovam o crescimento radicular (estimulantes hormonais, microrganismos, etc)

Também não podemos esquecer do Conceito 4C, utilizado para amentar a eficiência da adubação:

– Dose Certa (análise de solo é fundamental para isso)

– Local Certo (aplicação localizada x área total – “à lanço”/superficial/incorporado)

– Época Certa (lembrar dos problemas de envelhecimento do fósforo)

– Produto Certo (hoje existem adubos fosfatados de eficiência aumentada no mercado)

Ao Conceito 4C poderíamos adicionar mais um item (Conceito 5C?), que seria o Manejo (do solo) Correto, envolvendo práticas como Sistema Plantio Direto, correção de compactação e acidez do solo, incremento do teor de matéria orgânica do solo, etc.

“E agora José?” Qual sua opinião sobre fazer a poupança de fósforo no solo?

Roberto Reis – Eng. Agr., D.Sc.

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